sábado, 20 de junho de 2015

TRISTE OPÇÃO!


Setembro de 2013. Cheguei à delegacia de Cabo Frio (126 DP) por volta das 09h00min h de uma terça feira, para iniciar meu expediente no GIC (GRUPO DE INVESTIGAÇÃO CRIMINAL).

Ao abrir minha sala, encontrei sentadas duas meninas Lindas que estavam algemadas uma a outra pelos tornozelos. Eram irmãs, sendo uma de apenas 16 anos e a outra de 23, com um bebê nos braços. Imediatamente fui apurar o que estava acontecendo.

Fui informado de que na noite anterior uma denuncia no DISK DENUNCIA, levou uma equipe de policiais ao 2º distrito, no bairro aquário, Unamar - Cabo Frio, para constatarem em uma residência situada em um condomínio, a presença de traficantes que fugiram da pacificação no complexo do Lins no RJ. 

Lá chegando os policias prenderam do lado de fora da casa alguns elementos e no interior da casa estavam às Meninas com um bebê, muitas drogas e 08 fuzis. Foram todos presos e autuados por Associação ao tráfico.


Ao tomar ciência do fato, voltei a minha sala onde as meninas estavam detidas, aguardando serem transferidas. A maior para o sistema penitenciário e a menor para uma unidade prisional para meninas no RJ, onde as menores infratoras são acauteladas. Na sala comecei a conversar com elas, em busca de uma resposta para o envolvimento delas com o tráfico. Pois a princípio negavam saber da existência de armas e drogas na residência em que estavam. Diziam estar ali a convite de uma amiga para passarem o fim de semana. Que moravam com o irmão no bairro LEBLON no RJ e pertenciam a uma família de classe média.

A maior tinha em seus braços uma criança de 05 meses e a amamentava enquanto eu conversava com elas. Justamente por causa da criança sua versão de que desconhecia o que ocorria na casa onde foram presas, não pode ser mantida por muito tempo. Pois ao ser apurado, a criança era filho dela com um traficante que estava foragido da justiça e que pertencia ao grupo preso. 

Não conseguindo entender o que leva umas jovens de classe média e com um futuro promissor a envolver-se com criminosos a ponto de destruírem suas vidas, a perguntei se já sabia do envolvimento do pai de seu filho com o tráfico ao conhecê-lo e se já era viciada em drogas. Pois a mesma em seu depoimento disse ser usuária. 

Com os olhos lacrimejando e de cabeça baixa, me disse: “Não, eu não era viciada”. Nunca havia usado nenhum tipo de droga. E sabia sim que ele era envolvido com o tráfico.

Não tenho como negar, pois todos na faculdade e na boate que eu frequentava com minhas amigas sabiam. Mas era um cara atraente, educado, doce comigo e com minhas amigas e amigos. Isso me encantava e me fazia esquecer todos os meus princípios e orientações de minha tia, que nos criou. A princípio, eu encarava apenas como uma aventura.

Ele me presenteava, me tratava com carinho e fazia tudo por mim. Até que um dia me levou a sua comunidade. E lá ao ver seu domínio sobre todos, onde era respeitado e temido, ostentando armas possantes e comandando um grupo grande de homens armados, fiquei fascinada. 

Logo me ofereceu a cocaína, dizendo que era para descontrair. Que eu deveria apenas experimentar e se não gostasse, não usaria mais. No início recusei, mas logo acabei aceitando e usei. Fiquei de fato menos tímida e me divertir a noite toda em um baile funk que constantemente era realizado na comunidade. Ser vista ao lado dele com armas na cintura e homens ao seu lado com fuzis, me fazia sentir-me “poderosa” e invejada pelas outras meninas que ali frequentava. E isso me fascinava! Meu comportamento em casa passou a mudar. Eu passei a ser rebelde e a não respeitar mais meu irmão. Pois me achava intocável, poderosa e independente. Pois tinha o que eu desejasse, quando o pedia. 

Logo percebi que estava viciada. E não conseguia mais ficar sem usar cocaína. E ele também passou a mudar comigo. Pois sua facilidade em conquistar lindas mulheres era imensa e passou a me trair e me maltratar. A droga assumiu o controle de minha vida e eu não era mais dona de minha razão. Achava que o amava e pouco tempo após engravidei. Logo esse amor por ele diminuiu e a dependência pelas drogas cresceu. Eu não conseguia ficar mais um só dia sem. E já o procurava para usar. Ficava dias na comunidade perambulando e mendigando por drogas. Eu não era mais eu mesma. Perdi minha identidade através de uma triste opção. Nessa altura eu não era mais a sua mulher e sim uma das.
Larguei meus estudos, dei as costas para minha família e amigos. Eu não tinha mais sonhos, projetos, objetivos... 
Não tinha mais identidade... Não ligava mais para o futuro. “Queria apenas viver o hoje e só com a cocaína conseguia vivê-lo, se é que posso chamar isso de vida”. 
Neste momento chega à delegacia o irmão e a tia chorando convulsivamente, para pegarem a criança e elas foram transferidas.

O pior disto tudo é saber que essas meninas são apenas umas das muitas que se envolvem com elementos como esse, diariamente. Pois eles estão onde nós pais não podemos estar constantemente. Isto é: “Nas baladas, nas portas das faculdades ou até mesmo estudando nelas, nos sites de relacionamento...”

Têm um grande poder de sedução, pois alguns têm boa aparência, na maioria das vezes, são jovens e articulados. Ostentam poder econômico e se demonstram amigos e dóceis em sua sedução. .

Nossa única arma contra aproximação destes elementos em nossos filhos é o diálogo constante, sem censura. Alertando-os sobre essas investidas, sobre os males que as drogas causam... É necessário darmos uma liberdade vigiada. Não importa que seu filho tenha 12 ou 20 anos. Você precisa conversar com ele todos os dias, procurar ver com quem se relaciona, pois as más companhias são o passaporte para o crime. 
Jamais dê as costas. Pois o traficante está sempre pronto para ficar de frente e furtar os sonhos, projetos, objetivos e a vida de seu filho. 

Um grande abraço do amigo Pedro Chagas 
(Inspetor de Polícia civil do RJ).
 “Um tira metido a escritor”.

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